Entidades incentivam os adolescentes a fazer uma poupança ou os encaminham a uma república
Erika Klingl
Fonte: www.correioweb.com.br
Publicação: 30/07/2009

Preocupadas com o futuro dos abrigados, algumas instituições do Distrito Federal trabalham na construção de uma rede de amparo para meninos e meninas que acabam de completar 18 anos. A iniciativa ainda é muito tímida, se comparada ao tamanho do problema, mas pode ser de grande valia para Lucas*. Ele faz aniversário em outubro e já tem uma caderneta de poupança de R$ 5 mil. O adolescente faz estágio no Banco do Brasil e todo o dinheiro recebido vai direto para uma conta bloqueada. Os gestores do Abrigo Casa do Caminho, em Taguatinga, não deixam que ele mexa no dinheiro enquanto estiver abrigado, já que o sustento do garoto é todo mantido pela instituição e pelo Estado. “Quando eu sair daqui, poderei pagar um aluguel ou os estudos”, planeja.

Lucas mora na instituição há cinco anos. Além dele, dois irmãos gêmeos, de 13 anos, estão abrigados lá. Eles perderam pai e mãe para a bebida. “Primeiro, morreu minha mãe. Foi triste demais. E, dois anos depois, meu pai morreu também”, lembra. A primeira saída da família foi dividir os irmãos. Os mais novos foram para o abrigo e Lucas, para a casa de uma tia. “Não gostei porque senti muita falta dos meus irmãos e, por isso, saí da casa dela”, afirma. “Não sei o que vou fazer aos 18 anos, mas sonho em poder cuidar deles (dos irmãos) por conta própria”, acrescenta.

No Lar de São José, desde dezembro, funciona um projeto inédito no Distrito Federal. O Casa Juventude é uma república de ex-abrigados. Um apartamento de dois quartos em Ceilândia serve de moradia transitória para os jovens que acabaram de completar 18 anos. As despesas são divididas entre os garotos e a instituição filantrópica.

Boa convivência

Atualmente, três jovens de 18 anos vivem na república. Dois garotos ocupam um dos quartos e uma garota dorme no outro. “Eles praticamente não vivem juntos durante o dia porque os três estudam e trabalham, mas a convivência tem sido muito boa”, conta a coordenadora do projeto, Patrícia Moraes. “Trouxemos essa ideia de um abrigo de Minas Gerais e oferecemos, além de uma ajuda financeira, suporte pedagógico e psicológico”, ressalta. De acordo com Patrícia, a proposta é de que cada jovem possa viver na casa um ano. “Mas, em caso de não ter para onde ir, o prazo pode ser estendido para três, até que ele possa se estruturar”, garante.

Apesar de contar apenas com três jovens, a primeira república do DF tem capacidade para atender seis jovens, sendo três do sexo feminino e três do sexo masculino, inclusive irmãos. A proposta apresentada é para eles receberem um apartamento mobiliado, custeio do aluguel pelo período de 12 meses, inserção no mercado de trabalho e na rede pública educacional.

Um projeto como esse pode ser a solução para Jaqueline*. A menina tem 16 anos e já está com medo. Ela mora em um abrigo em Taguatinga, há dois anos, e afirma que ainda não está pronta para se virar sozinha. “Aqui, eles até incentivam a gente a ir e voltar da escola a pé e, de vez em quando, pegar ônibus para ir ao médico. Mas não sei se estou pronta para sobreviver numa cidade deste tamanho sozinha”, diz.

Jaqueline veio de Coromandel (MG) para fazer uma operação na córnea. Já passou pela cirurgia, mas não pensa em voltar mais para casa. “Estou liberada pelos médicos, mas não vou embora. Aqui é o meu lugar”, garante. Assim como ela, 43 abrigados têm 16 anos.

(*) nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente

Quatro perguntas para...

Eliana Pedrosa

O governo se prepara para abrir, até o fim do ano, duas repúblicas para jovens abrigados. O anúncio foi dado pela secretária Eliana Pedrosa, chefe da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), em entrevista ao Correio.

Os adolescentes sofrem com a perspectiva de fazer 18 anos. A senhora já sentiu isso nas visitas aos abrigos?
É verdade. Eles têm medo de fazer 18 anos.

E que solução o governo oferece a esses jovens?
Nós procuramos encaixá-los em cursos profissionalizantes. A Sedest trabalha dentro da ótica de encaminhar para cursos.

Mas isso, até hoje, não foi suficiente. A senhora concorda?
Por isso, estamos preparando portaria para criarmos repúblicas. Hoje, a única alternativa dos adolescentes é ir para abrigo de adultos. Queremos fazer uma casa intermediária. No papel, o conceito já foi criado. Agora, estamos fazendo a parte operacional para começar a trabalhar nesse sentido.

E quando seria isso?
Queremos implantar até o fim do ano duas repúblicas. Seria um lugar para morar com supervisão de adultos e com foco no mercado de trabalho. Por exemplo, para ficar na república tem que assumir o compromisso de estudar, ir para curso profissionalizante e, obrigatoriamente, se cadastrar na Agência do Trabalhador.


Palavra de especialista
Modelo é alvo de questionamento

“A questão dos abrigos é tão complexa quanto negligenciada. Todo mundo trata abrigo de forma tão simplória como se fosse mágica resolver o problema. O resultado é a criação de um processo complexo e de difícil resgate pessoal e da individualidade. A sobrevivência de quem passa pelo abrigo é difícil, como ser humano autônomo, sociável.

Do jeito que os abrigos estão concebidos, há uma morte das perspectivas. Abrigo é tão banal quanto complexo. É tão necessário quanto abominável. E nós, especialistas, e os elaboradores das políticas públicas ainda não conseguimos dar resposta para essa juventude.

O principal paradoxo dos abrigos é o fato de tratar todos de forma igual e coletiva em um ambiente social muito individualizado. Somos uma sociedade em que o peso da formação e do sucesso individual é determinante para vida adulta. O modelo do abrigo é extremamente coletivo. Mas não é coletividade de propósito e com objetivo. É circunstancial porque é melhor vestir igual, comer igual, ter o mesmo caderno, ir para mesmo passeio, porque é mais fácil.”

Neide Castanha, secretária executiva do Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria)